Quem comanda nossas decisões?

August 14, 2020

 

Por que temos reações que aparentemente não controlamos? Como e o que fazer para mudar comportamentos indesejados?

 

A resposta a todas essas questões está em nosso cérebro. Compreender seus dois grandes mecanismos de funcionamento é a chave para termos uma vida mais consciente e produtiva, como você entenderá neste artigo. 

O sistema automático e o sistema analítico

Grande parte de nosso cérebro, por ser muito antiga, continua agindo, ainda hoje, como há milhões de anos. Nosso comportamento, portanto, tem um poderoso componente automático, que atua independentemente de nossa vontade consciente, e um frágil componente racional, que age segundo nossa escolha.

Cientistas renomados, entre eles Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, resumem o funcionamento do cérebro em dois grandes modos de ação: o sistema automático e o sistema analítico:

  • O sistema automático ou involuntário é exercido pelas partes mais antigas, grandes e volumosas do cérebro, ou seja, o tronco encefálico, o sistema límbico e uma parte do córtex. Ele comanda nosso funcionamento inconsciente e, segundo se estima, é o responsável pela maioria de nossas ações. Portanto, exerce influência muito maior do que imaginamos em nossa vida.

  • O sistema analítico ou voluntário é exercido pelo nosso córtex pré-frontal e é responsável pela tomada de decisões racionais. Estima-se que temos baixa percepção do funcionamento cerebral, ou seja, proporcionalmente, poucas de nossas ações são de fato tomadas de maneira lógica e racional.

O elefante e o condutor

O psicólogo social Jonathan Haidt criou uma metáfora genial ao explicar que os dois sistemas funcionam como um  elefante, com um minúsculo condutor sentado em suas costas. O sistema automático seria um poderoso elefante, age sempre por instinto e de maneira inconsciente. O sistema analítico seria o condutor, um sujeito bem intencionado, mas frágil. 

O condutor é um analista consciente e racional, que tenta desesperadamente assumir o controle do elefante, que, por ser muito mais poderoso, ignora o condutor e faz o que quer na maior parte do tempo. Pesquisadores como Richard Thaler (outro ganhador do Prêmio Nobel de Economia) e Carl Sunstein resumem da seguinte maneira os dois modos de funcionamento do cérebro:

Sistema automático (elefante):
  • é inconsciente;

  • é irracional;

  • é instintivo;

  • é muito antigo;

  • é intuitivo;

  • é rápido;

  • não requer esforço;

  • faz muitas coisas ao mesmo tempo;

  • nunca se cansa.

Sistema analítico (condutor):
  • é responsável pelo pensamento consciente;

  • é racional;

  • é muito recente;

  • é dedutivo;

  • é lento;

  • necessita de muito esforço;

  • faz uma coisa de cada vez;

  • cansa-se rapidamente.

A força de vontade e o autocontrole

Na disputa pelo controle, apesar de o esforço do condutor, na maioria das vezes quem decide o que fazer é o irracional elefante. Jonathan Haidt explica que há um “gostômetro” que está sempre funcionando na mente humana,  gerando julgamentos, de preferência em relação ao que experimentamos. Isso significa que o elefante tem uma opinião preestabelecida sobre quase tudo que nos acontece no dia a dia, sendo inclusive o responsável por nossos vieses.

Por mais que nosso condutor tente não ser tão pessimista ou irrealisticamente otimista, o elefante mantém seu padrão de pensamentos.

É difícil para o sistema analítico vencer o sistema automático somente com a força de vontade, e, na maioria das vezes, é o elefante que domina o condutor. É o sistema automático quem decide, quase instantaneamente, o que é bom ou ruim, bonito ou feio, certo ou errado, divertido ou chato, interessante ou entediante.

É por isso que tentamos mudar maus hábitos e, poucas semanas (ou dias) depois, estamos de volta ao antigo modelo. O condutor planejou uma mudança de rota mais inteligente, mas o elefante insiste em trilhar o caminho que percorre há anos. 

A conclusão é que, quando somos obrigados a mudar radicalmente algum aspecto da personalidade – mesmo por poucos minutos –, ou realizar tarefas para as quais não temos a menor aptidão, gastamos uma enorme energia, que é consumida rapidamente. Isso ocorre, por exemplo, quando uma pessoa sociável e falante é orientada a permanecer calada e concentrada em tarefas técnicas o dia todo em seu ambiente de trabalho.

O esforço de permanecer quieta e concentrada é extenuante. O oposto também é verdadeiro: uma pessoa tímida fica exaurida ao ter de agir como relações-públicas ao receber visitantes na empresa, mesmo que por poucas horas. Provavelmente você já sentiu o enorme desgaste que é tentar desempenhar um papel que não tem nada a ver com seu estilo natural de ser.

Assim, conforme vão se passando os anos, nosso elefante vai ficando com características cada vez mais marcantes, definidas e relativamente estáveis. Quanto mais o tempo passa, mais automáticos tendem a ser nossos:

  • preconceitos;

  • julgamentos;

  • vieses;

  • comportamentos familiares;

  • comportamentos profissionais;

  • receios;

  • estilos de vida (maneiras de lidar com ganhos/perdas, vitórias/derrotas, sucessos/fracassos, gasto/economia, poder/impotência etc.);

  • gostos musicais;

  • alimentos preferidos (e odiados);

  • atração e repulsão por determinadas pessoas.

Compreender as forças inconscientes que nos dominam é o primeiro e grande passo para tomarmos decisões mais acertadas. Ao ter consciência de como funciona sua personalidade, você poderá utilizar soluções práticas para posicionar-se onde se sinta mais forte, seguro e produtivo.

Por isso é tão importante o condutor ter profundo conhecimento de como funciona seu elefante, não para mudá-lo radicalmente, mas para colocá-lo em um caminho mais produtivo. Sua personalidade mudará pouco, mas sua maneira de aproveitá-la pode mudar muito.

 

Fonte: Revista HSM

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